É tudo diferente.
O vestido, o salto. Nada nela é igual. É também como se as pessoas ao redor fossem diferentes, embora as caras continuem as mesmas. Ela tem impressões mas não precisa falar sobre isso, tamanha é a sensação de que acordou nascida em outro país de língua totalmente muda - uma língua em que não se fala com a boca, mas com o sorriso e os olhos e os gestos, com o corpo todo. É que ela nunca tinha refletido que podia falar sem dizer nada, e ainda assim continuar existindo. Seu modo de ser estava infinitamente atrelado à coisa do explicar-se, do colocar-se (numa bandeja de prata?) à espera de interpretações ou condenações externas. E agora era uma ansiedade tão nova, embora ausente de pressa, e ela caminhava como que para chegar a algum lugar em que um ser pudesse então decifrar que bem-aventurança era aquela - existir sem precisar dizer-se? E se não a compreendessem, de alguma forma ela se salvaria? Não sabia. O que sentia é que as pessoas agora a emudeciam e isso não era desconfortável. Ao contrário: era bom. Assim ela percebia os olhos profundos dos que passavam e as histórias de muitas vidas contidas neles, sem precisar de um certo modo ser digna disso. Ou por ser digna é que via o que ninguém mais?

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